"Não posso parar, se eu paro eu penso, se eu penso eu choro"
Essa semana conheci uma marchinha de carnaval que não saiu da minha cabeça. A letra dizia assim:
“Não posso parar, se eu paro eu penso, se eu penso eu choro.”
Ri primeiro. Depois fiquei em silêncio.
Porque tem algo muito honesto nessa frase. Ela virou marchinha, algo que o Brasil inteiro canta e repete, exatamente porque não é particular. Não é a história de uma pessoa só. É o que muita gente sente e não sabe bem como descrever: a ocupação constante como estratégia para não encontrar o que está lá dentro esperando.
O escudo gentil da agenda cheia
Eu entendo esse movimento. Tem dias em que a agenda cheia parece mais segura do que o silêncio. Em que o próximo compromisso, a próxima tarefa, a próxima coisa a resolver funciona como um escudo gentil entre você e aquela voz baixa que insiste em fazer perguntas inconvenientes.
O problema é que essa voz não some quando a gente não escuta. Ela só espera. E às vezes espera por anos.
O custo de não parar
Pensar dói, às vezes. Pode realmente ser sofrido. Parar e olhar com honestidade para onde você está, para o que está sentindo, para o que ficou pra depois sem data pra voltar, tem um custo emocional, que não é pequeno.
Mas o que eu vejo, em mim mesma e nas mulheres com quem trabalho, é que o custo de parar e pensar quase sempre é menor do que o custo acumulado de não parar.
Porque quando a gente não processa, carrega. E carregar sem parar vai aparecendo de outros jeitos: no cansaço que não passa, na irritação sem causa clara, na sensação de estar atrasada dentro da própria vida.
Formas concretas de criar esse espaço
A boa notícia é que parar e pensar não precisa ter um formato específico. Existem formas de criar esse espaço que podem ser suas:
Escrever num caderno, sem destino e sem forma. Só colocar para fora o que está dentro. A escrita organiza o que parece caótico e dá nome ao que ainda não tinha.
Conversar com uma amiga que sabe escutar de verdade. Não para dar resposta, mas para fazer com que você se ouça falando em voz alta.
Ir para a terapia, se esse for o momento de olhar para camadas mais profundas.
Buscar o coaching, quando o que falta não é mais autoconhecimento, mas a ponte entre o que você já sabe e o movimento que ainda não aconteceu.
Sentar em silêncio, sem tela e sem tarefa. E deixar o silêncio fazer o que só ele sabe fazer.
Não existe uma forma certa. Existe a forma que é sua, e melhor pra você no momento em que se encontra.
A pergunta que fica
Se você se reconheceu na marchinha, se a ocupação constante parece mais segura do que o encontro consigo mesma, talvez valha a pena perguntar o que exatamente você está evitando encontrar.
Não com julgamento. Com curiosidade.
Porque quase sempre o que está lá dentro esperando não é o monstro que a gente imagina. É só uma parte de você que ainda não foi ouvida.
Com carinho,
Laura
