O tempo não é garantia. A gente sabe, mas finge que não.

Tem um livro que terminei recentemente e que não saiu da minha cabeça desde então. "A Medida", da Nikki Erlick. A premissa é simples e perturbadora: de um dia para o outro, todo adulto do planeta recebe uma caixa na porta de casa, sem remetente, sem explicação. Dentro, uma fita que mostra exatamente quanto tempo de vida ainda resta.

E aí o mundo racha em dois. Quem abre. Quem não abre.

Quem vê uma fita curta entra em pânico, ou paralisa, ou de repente passa a viver com uma intensidade que nunca teve coragem de ter antes. Quem vê uma fita longa relaxa, se acomoda, adia tudo, porque tem tempo. E quem nunca abre passa o resto da vida evitando a pergunta que ele mesmo escolheu não responder.

O que a Nikki faz de genial é mostrar que o problema nunca foi a fita. É que a gente já vive assim. Sem saber quanto tempo tem, sem nenhuma caixa chegando na porta, a gente já adia a conversa, o projeto, o perdão, a coragem. Já vive como se houvesse uma garantia implícita de que o tempo vai continuar aparecendo. Como se o próximo ano fosse inevitável. Como se houvesse sempre uma segunda chance para o que foi deixado para depois.

A caixa só obriga a encarar o que a gente sempre soube e fingiu não saber: que acaba. E que quando acaba, quase sempre parece cedo demais.

Mas o que me ficou não foi o medo da resposta. Foi outra coisa.

Fiquei pensando nas mulheres que chegam até mim carregando algo há mais tempo do que deveriam. O mestrado que está na cabeça há três anos. A especialização que sempre fica para o próximo semestre. A transição de carreira que já tem nome, já tem forma, já tem tudo, menos o primeiro passo. A conversa com a chefe que precisava ter acontecido há muito tempo e que continua adiada com uma justificativa diferente a cada mês.

Não é preguiça. Não é falta de vontade. É que a gente aprendeu a viver dessa forma mesmo, como se o tempo fosse garantido. Como se houvesse sempre um momento mais certo, uma versão mais pronta de si mesma para quando aquilo finalmente acontecer.

A caixa de Nikki Erlick só torna visível o que já estava lá.

Tem algo específico que você está adiando? Não um tema genérico, o nome. O curso que você já pesquisou mas nunca se inscreveu. A área para onde você sabe que quer ir mas ainda não deu o primeiro passo. O que for que, quando você para e pensa com honestidade, já deveria ter começado.

Agora que ele tem nome, ficou mais difícil continuar adiando.

E já que estamos aqui: você abriria a caixa?

Com carinho,
Laura

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